sexta-feira, 23 de julho de 2010

E POR FALAR EM BOLINHO DE FRANGO


Moreno forte, um tanto engordurado, assim era o velho Odilon, mais conhecido que Graham Bell, inventor do telefone e que morreu de susto com a visão que teve em sonho de uma mulher nua na tela de um celular.
Odilon inventou o bolinho de frango, mas não morreu com a visão de um hamburguer. Nem teve indigestão. Morte natural.
Odilon ficava ali entre São Miguel Arcanjo e Itapetininga, um lugar chamado Gramadinho e ninguém sabe por quê. Nunca se viu grama por lá e o pó da estrada de terra pintava de
vermelho a capela, as sobrancelhas de moças na janela, a careca dos velhos sem chapéu e os bolinhos de frango que sobravam no balcão.
Gramadinho não era de São Miguel e muito menos de Itapetininga.
Gramadinho era de Gramadinho e muita gente que se achava grã-fina e vinha de Itapetininga torcia o nariz quando passava por perto.
Não dá para entender agora o bolinho de frango virar patrimônio cultural de Itapetininga, como decidiu a Camara de Vereadores.
O bolinho de frango tem um dono só, o Odilon de Freitas, e virou bolinho de todo mundo que passa com fome em beira de estrada.
Outra coisa: bolinho de frango virar patrimônio cultural é de fazer Nhô Bentico(*) se levantar no túmulo e bater o pó dos ossos desconsolado.

(*) Nhô Bentico ou Abilio Victor foi um grande jornalista, poeta e radialista de Itapetininga. Lembrem-se de Pitoco:
"Pitoco era um cachorrinho que eu ganhei do meu padrinho numa noite de Natá..."

sábado, 17 de julho de 2010

IGREJA DE SÃO MIGUEL ARCANJO EM REFORMA PARA VISITA DO BISPO EDIR MACEDO

O altar-mór de uma igreja católica, apostólica e romana é o templo sagrado, onde o santo padroeiro fica acima de nós simplesmente para que levantemos a cabeça em busca de Deus, que fica bem mais no alto.
O altar-mór de São Miguel (informação do Orlando Pinheiro) foi erguido pelos padres Humberto Ghizzi e Francisco Ribeiro, com o apoio da colônia Sirio-Libanesa. E todos nós aprendemos a buscar Deus nas alturas.
Mas, por que as igrejas de outras religiões não têm altar-mór?
Porque em igrejas de outras religiões nada existe acima do pastor, que se julga o próprio Deus. Tudo acima dele que desviar a atenção dos fiéis é retirado do recinto. Sozinho e sem rivais, como um ator principal de TV barata, o pastor doma o rebanho.
Imagine o cal que encobriria a decoração em afrescos da Capela Sistina, pintada por Michelangelo, Botticelli, Raphael e Bernini, se algum pastor fosse o maioral da paróquia.
E a Pietá, de Michelangelo, seria removida da Basílica de São Pedro, assim como já fizeram com a imagem de São Miguel Arcanjo.
Eu desconfio, meu Deus, que aqueles que mexem na Igreja de São Miguel seriam capazes de raspar numa reforma as paredes do Convento Santa Maria delle Grazie, em Milão, onde Leonardo da Vinci pintou a Última Ceia.
Também desconfio, meu Deus --- e é uma desconfiança terrível --- que toda essa reforma está sendo feita para que nada reste do altar-mór nem de imagens e o espaço fique branco e livre para que só Edir Macedo apareça. E ele seria o convidado especial para a inauguração da nova igreja.

domingo, 11 de julho de 2010

EM SÃO MIGUEL ARCANJO O MUNDO É MAIS BONITO QUE NA REDE GLOBO


A festa foi no Arraial da Penha. Sabe onde fica?
O Arraial da Penha fica embaixo do Cruzeiro do Sul, bem alí embaixo da estrela da direita.
Nunca viu? Bem feito.
Quem não olha para o céu nada vê mesmo.
Mas, quem olhou encontrou a maior festa, organizada na Casa das Sete Mulheres: Dete, Penha, Fátima, Dora, Abilinha, Silvia, Carmo.
Quase mil bolinhos de frango fritos na hora, quentinhos,mas nem precisava assoprar, que no sereno da noite eles pegavam o gostinho e a temperatura de um beijinho salgado, esses beijinhos de pipoca que se davam no cinema, antes de surgir o chiclé de bola e a Novela das Oito.
Nunca comeu um bolinho de frango?
É invenção caipira, mas se você não é caipira e prefere um hamburguer, tudo bem: passarinho que come pedregulho sabe o rabo que tem.
E havia bolo de fubá, havia pamonha, curáu, cuscuz, todas essas coisas com que se comemora a simplicidade de se amar uns aos outros. Porque o amor é uma coisa simples de se ver. Basta desligar a TV e olhar para o Cruzeiro do Sul numa noite clara.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O BRASIL GANHOU

Imagine se a mediocridade vencesse outra vez. Ela que tem feito gato e sapato de nossa alma.
Imagine ter que engolir as lições do cárcere de Dunga, que prende a vida e o futebol brasileiro num canto amargo da boca.
Imagine ter de ver a Dilma e o Lula com a camisa da seleção e sem nenhum Brasil no coração.
Imagine só.
O Brasil ganhou. E cala a boca Galvão.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

A JABULANI É COISA DE SÃO MIGUEL

A primeira bola Jabulani do mundo foi do glorioso Esporte Clube São Miguel Arcanjo, nos Anos 40 do século passado. Uma criação do sapateiro Mingo Terra, feita com o couro de um boi velho do Anibal Coelho.
Pediram ao Padre Chico que lhe desse um nome. Ele sugeriu Viçosa. Acharam que era nome de vaca. Ficou Vesga Louca.
Por que um nome desses? Vesga Louca?
Por causa do efeito que ela pegava, um efeito estranho e retardado.
Nas cobranças de faltas perigosas ou nos penaltis a favor, nos jogos realizados em São Miguel Arcanjo, a bola era imediatamente colocada em campo no lugar da outra. Cuidavam dessa operação rápida e sorrateira um ou mais integrantes de um comitê criado especialmente para tanto e que Gijo Válio e Milton Sewaibricker dirigiam quando estavam um pouco bêbados.
Então, acontecia o seguinte: na cobrança do penalti ou da falta o chute era propositadamente fraquinho (só os jogadores de São Miguel conheciam o segredo), o goleiro fazia a defesa e quando todo importante quicava a bola no chão, ela pegava efeito e entrava no gol. Efeito retardado.
Pilar do Sul era o maior freguês da Vesga Louca, a primeira Jabulani do mundo.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

"DESCULPE, PAI"



CARTA ABERTA DE AILTON PARA SEU PAI MILTON SEWAIBRICKER


"Pai, desculpe pai, mas deixei cair no rio Paraná sua vara de pescar.
Um filho perder a vara de pescar do pai é o maior dos pecados. Mas, juro que não foi distração nem bebedeira, a vara escapou de repente de minha mão com molinete e tudo e --- tchibum --- foi pro fundo do rio.
Então, me deu um nó na garganta e uma vontade de chorar. Aquela vara verde, com detalhes de madeira e couro, era a lembrança sua que eu carregava rio acima, rio abaixo, até conversava com ela, pedia conselhos e se alguma coisa não deu certo é porque fico meio surdo quando bebo e não devo ter ouvido direito o que a vara dizia.
Mas, nas vezes em que prestei atenção, quando rezei com a vara de pescar na beira do rio, a sorte sempre esteve comigo e Tucunaré nenhum fez gracinha na minha frente. Não perdi um.
Pois, é, pai: perdi sua vara de pescar. Desculpe.
Mas, não sei porque, alguma coisa está me dizendo que não perdi a vara. É que a pescaria estava tão boa que eu desconfio que você desceu lá do alto e pegou a vara emprestada só para dar umas fisgadinhas. Tomara que sim. E que minha mãe Maria e meu irmão Luiz tenham ficado felizes com isso, ali na beira do Paraná, disfarçados de passarinhos."

segunda-feira, 31 de maio de 2010

MIGUEL ORTIZ. 73 ANOS DE JANELA.

Miguel Ortiz de Camargo. Miguel Ortiz. Simplesmente Ortiz. Ou Miguel.
Meu tio Miguélzão. Eu sou o Miguelzinho.
O tio mais novo que eu tenho.
Tio ou irmão? As duas coisas.
Com ele tive minha primeira lição de mulher. Confesso que me assustei um pouco. Não imaginava que nem tudo eram flores ou perfumes.
Com ele aprendí que um viado de quatro nunca fica de pé, mas um viado de pé sempre fica de quatro.
Com ele varei cerca de arame farpado para colher laranja no quintal do vizinho.
Com ele fui coroinha e só deixei de ser quando certa manhã ouvi seu grito lá no fundo da casa paroquial: Corre, corre, Miguelzinho, que o padre qué comê nóis. E até hoje a gente corre.
Com ele nadei pelado pela primeira vez e arrisquei uns puns na piscina do Abdalla Jabur para ver se subia bolinha. Não subiu nenhuma.
Com ele toquei na banda, joguei bola, pião, bolinha de gude, fui toureiro de bode e cabra vadia, até que um dia a jardineira do Bento França me levou embora e me perdí da infância.
Mas, engraçado, a infância sempre volta para quem não é morto vivo.
E a sombra agora a meu lado, aqui na Avenida Paulista, em São Paulo, tenho certeza que é a dele.