sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

RENATO CAUCHIOLI


Exmo.Sr.
Antonio Celso Mossin
DD. Prefeito do Município de São Miguel Arcanjo


No uso de suas atribuições legais, espero que V. Exa. dê a um logradouro público de São Miguel Arcanjo (rua, escola, coreto) o nome de Renato Cauchioli, o Renato do Trombone (na foto é o músico que ergue o dedo, na segunda fileira).

Durante mais de meio século, Renato não se cansou de enaltecer São Miguel, onde nasceu, aprendeu música com Joaquim Maestro e de onde saiu ainda bem jovem para São Paulo, Brasil e o Mundo.

Durante mais de meio século, ele voltou todo dia 29 de Setembro a São Miguel para agradecer as graças recebidas pelo seu talento. E foram tantas. Integrou as melhores orquestras de sua época:Osmar Milani, Enrico Simonetti, Ruben Perez (Pocho), Nelso Ayres. Atuou com Sargentelli na Itália e no Principado de Mônaco. E também com Roberto Carlos, na Globo e SBT.

Na música clássica brilhou com a Orquestra Sinfônica de São Paulo.

Gravou dois LPs: Trombone Carinhoso e Trombonadas.

Enfim, muito trabalho e na breve pausa entre um compromisso e outro, São Miguel Arcanjo entrava na pauta e ele vinha e rezava e agradecia a graça de ter na regência de sua vida um Arcanjo com tanta força.

Renato merece ficar na história desta cidade, porque foi um dos que mais cantaram essa história longe daqui.

(A foto é do arquivo de Lineu Bernardi, sobrinho do grande maestro Osmar Milani. E o texto é o da carta enviada ao Prefeito de São Miguel)

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

IRENE, VERÔNICA DE SÃO MIGUEL ARCANJO

Ela cantava a mesma dor da santa mulher que tirou o véu com que cobria a cabeça e o entregou a Jesus, para que enxugasse seu rosto sangrado de amor a caminho do Calvário.
E a face de Jesus ficou no lenço para nunca mais ser esquecida.
Verônica. Santa Verônica.
Irene era nossa Verônica que cantava de dor. A dor do desamor.
A voz doída de Irene era o triste sinal de que almas afoitas esqueceriam a virtude para serem virtuais.
E o "Alô, como vai você" (Irene era telefonista) viraria três linhas de palavras abreviadas pela preguiça de ser gente e pela pressa de se desfazer das mensagens. A mesma pressa de quem envia, com a mesma preguiça de ser gente.
Nós, os mensageiros do fim do amor e de nós mesmos, não vamos sentir a dor da paixão de Irene nem a dor que é feita de suor e lágrimas no Calvário que é preciso percorrer para ser eterno e virtuoso. E não virtual e descartável.
Cante em paz, Irene.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

TAPICHI, O MENDIGO ETERNO. ÀS VEZES, ELE APARECE.

--- É você mesmo quem eu estou vendo?

--- Eu quem?

--- Tapichi! Você não é o Tapichi?

--- Desculpe, mas não respondo pergunta de bêbado.

--- Pelo amor de Deus, você é ou não é o Tapichi?

--- Bem, já que você insiste, eu sou o Tapichi.

--- Meu Deus do céu, ai, que eu bebí demais. Ai, que você já morreu.

--- Só morre quem é bocó. Quem não é bocó, continua no mundo a acender estrelas apagadas, igual a quem acende vela em procissão. Mas, se e é pra tremer de medo, volto agora mesmo lá pra cima.

--- Não, não! Fique Tapichi! Quero saber de umas coisas. Tudo bem?

--- Tudo, já que só bêbado me vê e é bom que assim seja porque ninguem acredita em conversa de bêbado e eu fico em paz.

--- Por favor, diga Tapichi: o que você acha do Góes?

--- Góes? O diácono? Ele está bem demais com o pessoal lá das alturas. Só ouvi elogios sobre o presépio que ele montou. E tem até anjo com inveja da imagem de São Miguel Arcanjo que ele talhou em madeira.

--- Jura, Tapichi?

--- Não juro e nunca jurei na vida. Só jura quem é falso e mentiroso.

--- Outra coisa, Tapichi: como é que você fala tão bem agora, se antes só resmungava?

--- Eu resmungava, mas sabia tudo. E quem falava tudo, não sabia nada. Agora falo claro porque você está bêbado e vai esquecer a conversa. E com licença que vou voltar lá pras alturas de Deus. Dê um abraço no Góes e fale que se ele precisar de algum conselho, que peça pra mim e lave bem a orelha direita, que é lá que eu vou falar quando ele estiver dormindo.

(Imagens cedidas pelo Jairinho Costa)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

REFLEXÕES DE FIM DE ANO


Não fique triste por suas rugas. Nem por suas rusgas.
Nem esconda de mim nem de ninguém vincos nunca vistos num sorriso nem as sombras nunca vistas sob seu olhar.
Nem esconda de mim esses cabelos que lembram a paz.
Por favor: deixe a luz do quarto acesa, não apague o amor, que o amor procura a sua cama para se deitar a dois.
***
Amei sempre os urubus, meus mensageiros de São Miguel.
Sabem de sua feiúra e se elevam às alturas.
Sabem de sua mudez e cantam o silêncio.
Sabem de todas as quimeras e recolhem os restos dessa nossa felicidade passageira.
Sabem que ao pó retornaremos e vestidos de negro fazem versos com o vento que nos espalhará no Sem Fim.

sábado, 23 de outubro de 2010

ESSA NOSSA PEQUENEZ

EU ME SINTO TÃO INSIGNIFICANTE TODA VEZ QUE VEJO UMA JOANINHA.
EU QUE FUI TÃO ARROGANTE.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

SEMANA DA SAÚDE BUCAL

Eram de Nayler Miguel os dentes que davam orgulho à cidade de São Miguel Arcanjo e inveja a Pilar do Sul e Capão Bonito.
Nayler Miguel quebrava com os dentes pernas de cabrito assado e talvez tivesse força para segurar pela boca os que ainda estavam vivos.
Romeu, seu filho, herdou os dentes do pai e sempre os usou para sorrir, nunca para morder.
Diziam que a cebola era que dava essa saúde bucal sem igual (cientificamente, só o mau hálito foi comprovado).
Agora, os que misturavam farinha de milho ao leite de vaca, ao feijão do almoço, nas paçocas de Iguape ou comiam bolinhos de frango do Chico Rosa, ah, pegaram cárie brava e sorriam com manchinhas pretas nos dentes. Essas manchinhas viravam buracos e não demorava muito para se transformarem em zonas de perigo. Os dentes, todos os dentes, caiam nesses buracos e sumiam para sempre.
Surgia assim a freguesia do Eduwirge Monteiro e dentaduras de todos os tamanhos sorriam nas prateleiras, com cheiro de astringosol.
Diz a lenda que por falta de prática, a primeira dentadura de São Miguel Arcanjo caiu no buraco da privada, depois que o dono foi surpreendido de porta aberta e se levantou às pressas assustado de boca aberta. Lendas, lendas.
Enfim, comemorem a Semana da Saúde Bucal escovando os dentes. Mas, cuidado: escovem na boca, não nas mãos, que aí tudo pode despencar.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

FLOR DE ABÓBORA

Há certos dias em que minha sombra procura se esconder
sob as sombras de um pé de abóbora
nos quintais de São Miguel Arcanjo.
E sob as sombras, minha sombra brincaria de amarelinha com
flores e borboletas também amarelas,
pequenas, efêmeras,
que vêm e vão e se enredam no
vento manso da manhã
e deixam de voar,
apenas pairam no ar,
em plena fé de se deixar levar
para onde o nada é tudo
e o tudo tem tamanho
de joaninha.