quinta-feira, 14 de outubro de 2010

SEMANA DA SAÚDE BUCAL

Eram de Nayler Miguel os dentes que davam orgulho à cidade de São Miguel Arcanjo e inveja a Pilar do Sul e Capão Bonito.
Nayler Miguel quebrava com os dentes pernas de cabrito assado e talvez tivesse força para segurar pela boca os que ainda estavam vivos.
Romeu, seu filho, herdou os dentes do pai e sempre os usou para sorrir, nunca para morder.
Diziam que a cebola era que dava essa saúde bucal sem igual (cientificamente, só o mau hálito foi comprovado).
Agora, os que misturavam farinha de milho ao leite de vaca, ao feijão do almoço, nas paçocas de Iguape ou comiam bolinhos de frango do Chico Rosa, ah, pegaram cárie brava e sorriam com manchinhas pretas nos dentes. Essas manchinhas viravam buracos e não demorava muito para se transformarem em zonas de perigo. Os dentes, todos os dentes, caiam nesses buracos e sumiam para sempre.
Surgia assim a freguesia do Eduwirge Monteiro e dentaduras de todos os tamanhos sorriam nas prateleiras, com cheiro de astringosol.
Diz a lenda que por falta de prática, a primeira dentadura de São Miguel Arcanjo caiu no buraco da privada, depois que o dono foi surpreendido de porta aberta e se levantou às pressas assustado de boca aberta. Lendas, lendas.
Enfim, comemorem a Semana da Saúde Bucal escovando os dentes. Mas, cuidado: escovem na boca, não nas mãos, que aí tudo pode despencar.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

FLOR DE ABÓBORA

Há certos dias em que minha sombra procura se esconder
sob as sombras de um pé de abóbora
nos quintais de São Miguel Arcanjo.
E sob as sombras, minha sombra brincaria de amarelinha com
flores e borboletas também amarelas,
pequenas, efêmeras,
que vêm e vão e se enredam no
vento manso da manhã
e deixam de voar,
apenas pairam no ar,
em plena fé de se deixar levar
para onde o nada é tudo
e o tudo tem tamanho
de joaninha.


terça-feira, 28 de setembro de 2010

29 de Setembro. Dia de nosso Guerreiro Amoroso

Guerreiro, mas amoroso.
Nunca vi quando era menino sua espada cotucar nem de leve Joaquim Maestro se a banda desafinasse ou saísse do compasso.
Lá no andor, Ele fingia que nada ouvia e a procissão seguia tropeçando, porque havia pedras no meio do caminho, no meio do caminho também havia vira-latas, mas Ele nunca espetou com sua espada o rabo de nenhum.
Guerreiro, mas amoroso, Ele nunca castigou menino que soltava buscapé na frente da Igreja e que fazia velha desprevenida pular segurando a saia, pra ninguém ver as partes que ainda pegavam fogo.
Os bêbados da praça Ele sempre deixou dormirem em paz.
E das mãos dos loucos Ele tirava com cuidado os tijolos e as pedras.
Guerreiro, mas amoroso, Ele nunca impediu que as mulheres perdidas --- e que chamavam de mulheres da vida --- acompanhassem a procissão. E elas pareciam santas.
Do seu andor, a luz azul do amor descia serenando e serenava almas pecadoras e elas ficavam leves, voavam até o céu que cada um tem bem dentro de si e os passarinhos cantavam entre as badaladas dos sinos da Igreja.
Ele, guerreiro, mas amoroso, protege uma cidade. E talvez só espere uma coisa dos que o seguem em procissão: que façam dessa cidade uma cidade guerreira, mas amorosa.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

QUARENTENA DE SÃO MIGUEL ARCANJO III

Agradeço, São Miguel Arcanjo, por começar a entender um pouquinho dessa luz de Deus.
Eu agora quase sei que Deus é uma luz sem fim.
Eu agora quase sei que, atrás de Deus, estão as trevas também sem fim.
Quando Deus, por sua vontade, volta-se para as trevas, uma porção de luz se espalha e a pesada escuridão de nossa origem se desfaz.
E é na escuridão que mais se teme a Luz de Deus. E os demônios se encolhem.
Grato, São Miguel Arcanjo, por descobrir que eles se encolhem no íntimo jamais sondado de nós mesmos. O fundo de nossas almas é o fundo do Inferno, o abismo onde nos escondemos.
Os demônios sempre se multiplicaram no mesmo lugar: dentro de cada um de nós. Formaram ali uma legião e ali fogem da luz de Deus.
Mas, se a luz de Deus nenhum de nós suporta, alguém a conduz em ondas suaves e com boas e justas mãos.
Quem apanha a luz de Deus na própria fonte e a conduz até as trevas mais distantes?
Eu agora começo a saber quem é. Eu acho que quase sei: é São Miguel Arcanjo.
Grato, por essa luz que nos livra da mínima existência e nos abre os olhos para o alto, para além de todas as montanhas.
(Do livro Sob as Sombras do Bem e do Mal, de Miguel Arcanjo Terra)

domingo, 22 de agosto de 2010

QUARENTENA DE SÃO MIGUEL ARCANJO - II



A minha segunda oração a São Miguel Arcanjo. Que seja a sua, também.
"São Miguel Arcanjo: Que eu volte a contar riqueza com pingos de chuva que caem de goteiras do telhado e batem como moedas de ouro em velhas bacias.
Que eu nunca tema o fogo da pobreza. E bendiga aquela lenha miúda em fogão de barro e mãe de fumaça.
Que eu ame todas essas mães feitas de fogo e água, que cozem, lavam e passam, pobres mães amassadas, que nunca levaram a vida em banho maria.
Que eu aceite como uma benção o chiado da chaleira e o cheiro de café de todas as manhãs. As manhãs tem cheiro de mãe. O café também.
Que aquela beleza divina continue a passar pelas faces de mães pobres. E que Deus limpe os rostos dos pais, sujos de terra ou carvão.
São Miguel Arcanjo: Que o dente de uma criança não doa mais à noite e que essa dor nunca mais passe às mães.
São Miguel Arcanjo: Que eu não adule para conquistar nem junte as mãos para pedir aos homens.
Que eu me lembre sempre do primeiro fruto que colhi com as próprias mãos.
Que eu entenda, enfim, que o poder supremo aparece em brilhos de areia, em trilhas de caracóis.
E que eu saiba que em porta com tranca Deus nunca bate."


quarta-feira, 18 de agosto de 2010

QUARENTENA DE SÃO MIGUEL ARCANJO


A minha oração. Que seja a sua, também.

"São Miguel Arcanjo de minha liberdade:

Que eu viva cada dia sem nenhuma intenção.

Que eu tenha a coragem de ser um menino vazio de medos e esperanças, nem bom nem mau, vadio e só.

Que eu ande e ande pelos campos abertos e sinta, sob vossa proteção, que longe é mais longe e mais longe eu vá.

Que eu nada mais peça a Deus, porque quando se está a salvo, Deus também está.

Que eu percorra a Eternidade, que é toda a distância num tempo parado.

Misturado à névoa da tarde, que eu volte à casa onde sempre estive, sem medo do castigo dos falsos guardiães do imensurável.

Que eu não deixe meu medo encurtar o tempo e alargar distâncias para voltar a mim.

Que eu não seja mais um prisioneiro de meu egoismo, a medir todos os passos.

Que eu ande descalço e faça de meus pés a base do meu templo.

Que eu não me envergonhe de me contemplar num espelho barato de quermesse.

Que eu não procure meu reflexo no olhar dos poderosos nem deixe que suas mãos pousem sobre minha cabeça.

Que eu reconsidere as margaridas que nascem por si mesmas à beira dos caminhos."

(Do livro Sob as Sombras do Bem e do Mal, de Miguel Arcanjo Terra.)

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

MUDANÇA DE ENDEREÇO

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