sexta-feira, 28 de maio de 2010

DIÁRIO DA COPA (Da África do Sul para São Miguel Arcanjo)


DUNGA PREOCUPADO COM A MOLEZA GERAL
"Desculpem, mas não dá, assim não dá.
Como técnico da seleção preciso acabar com essa moleza.
Não posso admitir que jogador meu cochile enquanto se exercita.
Daí, minha decisão, que é irrevogável. E se é radical, o problema é meu, os jornalistas que vão pentear gorilas.
Amanhã, voce, Paixão, e você, Fábio, coloquem os jogadores em formação no meio do campo. Só isso, mais nada. Mas, estejam com suas pranchetas para anotar impulsão, velocidade, jogo de cintura, reflexos condicionados, espírito de cooperação.
Nosso querido presidente Ricardo Teixeira teve uma idéia genial para acabar com a pasmaceira nos treinos da seleção.
Ele alugou um leão, que será solto pelo domador no meio de campo amanhã.
O treino começa quando o primeiro jogador perceber o leão."








segunda-feira, 17 de maio de 2010

FALTA NESTA COPA O PICOLÉ DO SALOMÃO


Seu nome era ponto de referência em São Miguel Arcanjo: o bar do Salomão.
Ele trouxe para a cidade a primeira máquina de fazer sorvete e picolé.
O barulho do motor, os giros da espátula a misturar massas moles e coloridas, o bamboleio da pesada estrutura do equipamento, não havia menino que não se deslumbrasse.
Pesado de corpo e leve de alma, Salomão acrescentava ao sabor dos sorvetes e picolés o encanto de uma boa prosa.
Ele sempre dizia que três são as perdições do Homem: língua nervosa, estômago preguiçoso e a mulher do próximo.
Sua grande paixão: o futebol do zaqueiro Domingos da Guia, pai de Ademir da Guia.
Falava que foi o primeiro zagueiro a colocar a bola rente ao chão.
Ele contava uma velha história do Rei Salomão --- e brincava de dizer que era seu primo.
Numa tarde de muito calor, homens e mulheres foram enviados ao campo para apanhar melancias para o Rei Salomão. Mas, a o calor era tanto --- e a sede também --- que todos se esqueceram do Rei. Enfiaram suas cabeças casca a dentro e se lambuzaram na sua gula.
Então, o Rei Salomão condenou todos à mediocridade eterna. Viraram cabeças de melancia. Três milênios depois, elas continuam entre nós, ocas, apenas fazem eco. Algumas delas comandam a seleção brasileira.

domingo, 2 de maio de 2010

DOCES E ANTIGAS MÃES DE SÃO MIGUEL


Elas espalhavam todas as manhãs o cheirinho de tempeiro de feijão, bem na hora em que os sinos do relógio da Igreja Matriz batiam 10 vezes.
O relógio às vezes atrasava. A hora do tempero nunca.
Então, os maridos no trabalho e os filhos na escola sentiam de longe a fome bater. Mas, era fome de amor.
O cheirinho de tempero de feijão era o amor espalhado pelo ar. E dava vontade de correr logo atrás daquele amor que as mães de São Miguel serviam em pratos limpos sobre toalhas bordadas.
Elas ainda ofertavam, além de um amor bem temperado, a esperança. Passar de ano, tirar diploma. Plantar, colher, vender e pagar as contas. Tudo era possível depois do primeiro bocado. E nem era preciso mais que o torresmo e a couve do quintal, refogada, para disfarçar o arroz com feijão.
Na mesa, homens e crianças sentiam que havia uma Senhora de seus destinos, a Senhora mãe de fogão a lenha e café no coador.
Apagaram o fogo. As doces e antigas mães de São Miguel foram embora.
As novas, de laptop e celular, não sabem mais temperar feijão.
E assim o mundo vai acabando.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O TIRADENTES DE SÃO MIGUEL ARCANJO

Esta é uma velha história que Cassiano Vieira contava:
"Eduvirge Monteiro foi o Tiradentes de São Miguel Arcanjo.O nosso herói.
Um dia apareceu um caboclo lá na casa dele, abriu a boca e mostrou um dentão deste tamanho.Falou meio resmungado, mas deu pra entender que estava doendo demais. Era coisa pra tirar logo.
O Eduvirge olhou para o caboclo e disse:
--- Senta aí.
O caboclo sentou. A cadeira de dentista ficava na sala.
O Eduvirge pegou o boticão que estava ali pelo chão e avisou o caboclo:
--- Vai doer. O negócio tá feio. Vê se aguenta.
Depois, mandou o caboclo tirar o paletó.
Já sem paletó, o caboclo abriu a boca e o Eduvirge grudou no dentão dele e vai não vai, desgraçado de dente, o Eduvirge bota o pé no peito do caboclo, força que força, puxa pra cá, puxa pra lá, o Eduvirge acaba derrubando a cadeira, com a cadeira vem o caboclo, o Eduvirge cai de costas, o caboclo e a cadeira em cima dele, e vai daqui, espera lá, aquela ferramentaiada espalhada pelo chão, a bacia dágua vira, a mulher do Eduvirge, dona Zica, entra na sala, vê tudo aquilo, grita que vai chamar a polícia, ihhh, o caboclo rola no chão, o Eduvirge não larga o dentão do caboclo, vira pra cá, vira pra lá, já durava uns quinze minutos aquele rolo ali na sala e então: Ploft!!!
Saiu o dentão do caboclo. E o caboclo de um lado gemia: ai, ui, ai, ui!!!E o Eduvirge do outro lado bufava: ufa, ahh, nossa!!!
Então, o Eduvirge ofereceu um copo de água com Anacol para o caboclo lavar a boca. E vai e vai e os dois ficaram ali e o caboclo gemia: ai, ui, ai, ui!!!
O caboclo acalmou-se um pouco e perguntou gemendo:
--- Quanto é?
E o Eduvirge respondeu bufando:
--- Dois mis réis, dois mil réis, ufa, ahhh, nossa!
O caboclo:
--- Tá muito bem.Valeu a pena. Um dinheiro bem empregado.
E foi embora.
Cinco anos depois ele volta para a casa do Eduvirge para arrancar outro dentão.
Bateu palmas. Apareceu na porta o Ademar Monteiro, filho do Eduvirges. Ele havia se formado dentista há pouco tempo. Diploma bonito na parede.
O caboclo entrou e já encontrou uma injeção da Bayer. E se é Bayer é bom. Tudo moderno.
A primeira coisa que o caboclo perguntou:
--- Cadê seu pai?
O Ademar respondeu:
--- Ele não trabalha mais. Está cansado. Agora o dentista sou eu.
O caboclo meio desconfiado:
--- Eu queria arrancar o dente.
O Ademar, muito educado:
--- Eu cuido disso.
O Ademar anestesiou primeiro as gengivas do caboclo, preparou uma injeção e tuque no lugar onde ficava o dente.
--- Doeu?
--- Não, doutor moço. Não doeu nada.
O Ademar preparou outra injeção e tuque.
--- Como é? Está doendo?
--- Não, doutor moço.
Então, o Ademar apanhou o boticão mais apropriado, ajeitou bem e Ploft!
--- Olhe o seu dente.
--- Ué! Já arrancou? Ué? Arrancou mesmo!!!
O Ademar passou um Astringosol e tal e coisa e o caboclo perguntou:
--- Quanto ficou o trabalho?
--- Dez mil réis.
--- Quanto???
--- Dez mil réis.
Aí o caboclo pulou da cadeira:
--- Ah, isso eu não pago. Não pago, não.
--- Mas, por que?
O Ademar estava espantado. E o caboclo continuou:
--- Pois, fique sabendo, doutor moço, que faz uns anos que eu estive aqui para arrancar um dente com seu pai. E olha que a gente lutou e rolou uma porção de hora aí pelo chão. E sabe quanto ele cobrou? Só dois mil réis. Agora, eu volto aqui, não sinto dor nenhuma, ninguém lutou nem nada, você arranca meu dente sem dor, um tempinho de nada e ainda quer cobrar dez mil réis pelo servicinho? Ah, não pago.
O caboclo foi embora e enquanto saia pelo portão falava meio resmungado:
--- O seu pai sim é que era um Tiradentes de verdade.
Esse foi o primeiro cliente a dar prejuizo para o Ademar. Outros deram depois e o Ademar precisou se mudar para Sorocaba."

terça-feira, 6 de abril de 2010

JÁ É OUTONO EM SÃO MIGUEL ARCANJO

Por favor, olhem e me digam:
Ainda está florido aquele pé de Ipê?
Quem for de bom coração, que o abrace por mim, mas que seja bem cedinho. É que nessa hora o Ipê ainda terá em seu tronco água benta feita de orvalho para a paz da manhã.

Por favor, olhem e me digam:
As gotas de orvalho já demoram mais um pouco para cair das folhas e flores?
Quem for de bom coração, apanhe duas gotas na ponta dos dedos e me espere, que eu vou chegar em breve para lavar e amansar meu olhar com elas.

Por favor, olhem e me digam:
Algum pé de mexerica já amarelou carregado de frutos e pende além dos muros?
Quem for de bom coração, colha e guarde com cuidado meia dúzia de mexericas só pra mim e eu juro que vou engolir também as sementes e as semearei numa manhã qualquer num terreno sem dono para que cresçam e se multipliquem.

Por favor, olhem e me digam:

Ainda existe areião na estrada de Santa Cruz?

Quem for de bom coração, que apanhe um grão de areia e repare bem se não é uma estrela. Se não for, não faz mal, porque ela será um dia e brilhará à noite no céu de São Miguel Arcanjo e eu terei minha cabeça serena sob o sereno do Outono.




quinta-feira, 25 de março de 2010

ANIVERSÁRIO DE SÃO MIGUEL ARCANJO. PRIMEIRO DE ABRIL!

Tapichi, no seu mundo transparente.

Tapichi, o mendigo eterno (às vezes, ele aparece), manda de seu mundo transparente uma mensagem em razão do aniversário de São Miguel Arcanjo.
"É Primeiro de Abril, meus amigos. A cidade não existe. Nem você nem eu.
Se a cidade existisse (eu e você, também) a gente iria comprar picolé de groselha no bar do Salomão. Mas, cadê o Salomão?
Se a cidade existisse, a gente passaria no Abdalinha para rir com ele e comer um Bauru. Mas, cadê o Abdalinha?
Se a cidade existisse, a gente pediria ao Jorge ou à Tia Amélia um quibe ou um pastel, feito assim na hora, com barulho de óleo quente na frigideira, barulho de mãe. Mas, cadê o Jorge e a Tia Amélia?
Se a cidade existisse, o Suel estaria no balcão, ali bem na esquina da praça, a dizer em seu silêncio que para ser santo não é preciso ir a Roma nem ver o Papa. Basta ser manso de coração e perdoar as dívidas e os devedores. Mas, cadê o Suel?
Se a cidade existisse, o Lauro e suas lindas filhas estariam na padaria a dividir o pão da manhã e a confiar na palavra ou caderneta dos que não liam o aviso: Fiado só amanhã. Mas, cadê o Lauro e suas lindas filhas? E cadê os pães da madrugada do Chico Rosa, que eram passados pela janela para bêbados famintos que chegavam das serenatas com a fome de quem cantou muito, para tantas moças, mas comer que é bom, nada?
Se a cidade existisse, o Décio do Policarpo estaria com roupas novas e pose de galã para dançar com a garota mais cobiçada, no salão do clube Bernardes Júnior, e os mais feios morreriam de inveja. Mas, cadê o Décio?
Se a cidade existisse, João Ortiz, no saxofone ou clarinete, Zé Ortiz na bateria, Darcy Ortiz nos pratos, Tonico Ortiz no trompete e Joaquim Maestro na regência estariam tocando um chorinho, talvez de Pixinguinha ou Zéquinha de Abreu, para que almas se encantassem e percebessem que a vida só é vazia para quem não percebe a Lua Cheia. Mas cadê o chorinho? E quem liga para Lua Cheia nestes tempos?
Se a cidade existisse, o goleiro Dito Torto, os beques Romeu e Salvador Costa, o center-half Trincheira, o ponta Valdemar Coelho, o meia Nê Terra--- e tantos outros heróis--- estariam com o uniforme de guerreiros do Esporte Clube São Miguel para enfrentar os invasores de Pilar do Sul ou Capão Bonito. Mas cadê o campo de terra e de guerra?
Se a cidade existisse, o Cine São Miguel, às oito da noite, tocaria a última chamada e Pedrinho Ortiz, na portaria, resmungaria pelo atraso dos que deram um giro a mais na praça. Então, mãos no escuro apalpariam zonas proibidas e os que tinham esperança de um beijo mascariam chiclete e ficariam com água na boca os que estavam sós.
Mas, cadê o cinema do Foued?
Cadê o sorriso da Arima na loja do Harif?
Cadê a graça da Carmem Fogaça?
Cadê o canto de Irene, um canto triste na Via Cruxis de Jesus?
Cadê o palavrão do Zacarias ou do Elias?
Cadê a barriga do Nagib?
Cadê os exageros do Abrão Hakim?
Cadê os resmungos do Pajé?
Cadê o chapéu do Nestor Fogaça?
Cadê o vozeirão do Zé França?
Cadê o salão de barbeiro do Paulico?
Se a cidade existisse, haveria leilão e Cassiano Vieira gritaria: Quanto me dão por este leitão?
Ah, se a cidade existisse, que bom seria.
Mas, é Primeiro de Abril. São Miguel Arcanjo e todas as cidades brasileiras viraram mentira com a novela das oito, com o futebol do Galvão Bueno e seus clones e com o Big Brother. E nada mais existe: nem você, nem eu."


sexta-feira, 12 de março de 2010

POR QUEM OS SINOS DOBRAM


28.08.1940
10.03.2010


ANTONIO TERRA, O TONINHO,
SE TORNOU INVISÍVEL


Os olhos verdes, o sorriso tímido, o corpo de um Adonis, capaz de caminhar léguas de São Miguel a Iguape, andando com fé, que a fé não costuma falhar.

O Sim escancarado para a vida e o Não sempre escondido.

O sábio recato e mansidão de quem não cai nem perde a compostura depois da penúltima dose. E se cair, Deus levanta.

O amor declarado sem palavras, mas na ternura de um olhar.

O brio de vencer dores e desgostos quieto e sem lamentações.

Menino-homem, Homem-menino, Toninho acaba de se tornar invisível.

Talvez agora ele seja um vento manso que ondula os trigais.

Talvez uma réstia de luar que serena os namorados.

Talvez a chuva mansa que bate em humildes telhados e faz uma criança dormir.

Agora, invisível, Toninho é tudo o que sempre foi e nenhum de nós teve olhos para ver.

Talvez, um dia teremos e os sinos da Igreja Matriz de São Miguel Arcanjo serão ouvidos bem longe.


Homenagem de seus irmãos Inês, Gracinha, Miguel, José Carlos, Luiz Carlos. Da mulher, Carmélia. Dos filhos Ricardo e Patrícia. E de todos os netos, cunhados e sobrinhos.