sábado, 27 de fevereiro de 2010

Dia Internacional da Mulher. Uma homenagem às Carulas do Mundo.


Menino de uns seis anos, eu era um pouco bocó e me encantava à toa.
Os vôos de urubu bem lá no alto ou as trilhas brilhantes que as lesmas riscavam na areia me deixavam pasmado e quieto, com o olhar parado de quem saiu de si, foi passear e se esqueceu de que corpo sem dono o bicho pega.
Dos mistérios da vida, só dois mexiam comigo: o cemitério e a Casa da Carula.
O cemitério conhecí logo e até gostei do mel que o Dito Coveiro recolhia de favos que as abelhas faziam nas caveiras de defuntos pobres, que eram empilhados, depois de secos, em valas comuns.
Agora, a Casa da Carula nunca vi de perto. E de longe, pelo menos de dia, era igual a todas as outras.
Mas, à noite, o mistério continuava lá e eu ouvia as mulheres falarem, com raiva ou ciúme, coisas assim:
Ele passou a noite na Casa da Carula. Tem cabimento uma coisa dessas?
Ou:
O Padre entrou disfarçado de mulher na Casa da Carula. Quem me contou jura que é verdade.
Ou:
O que é que a Carula tem que eu não tenho? Ela gritou assim e foi embora para a casa do pai.
Ou:
Com tantas dívidas, ele queria beber formicida. Mas, passou na Casa da Carula, chorou um pouco e está aí sem vergonha e feliz.
Ou:
Aquela tristeza de viuvo já passou. Ele foi na Casa da Carula.
Ou:
Ele conheceu a mulher na Casa da Carula. Gostou e casou. E hoje ela é mais séria que muita mulher que reza o terço.
Ou:
Na Casa da Carula tem gemidos e ais, mas não é de choro.
Só muitos anos depois, o segundo mistério de minha vida se desfez. A Casa da Carula era o bordel da cidade, o lugar onde meninos viravam homens e homens viravam meninos.
E no Dia Internacional da Mulher, todas as Carulas do mundo merecem nossa homenagem, porque deram, porque se deram e porque tornaram os homens menos infelizes.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

CRIANÇAS DE VOLTA

Nivaldo, Martinha, Milton, Vicente, Ailton, Carlinhos, Neusa (titia), Maria Helena

A vida faz crescer as crianças.
Mas, tempos depois, a vida quer as crianças de volta, por uma questão de saudade.
Então, elas voltam, se reunem e posam para a fotografia.
Quem reparar bem na foto vai ver que existe uma boneca no chão, mais de uma, são três bonecas (a de louça é de Tia Neusa).
Também dá para perceber bolinhas de gude, um caminhãozinho de madeira, uma bola de borracha (furada), um patinete, uma pipa, uma porção de lápis de cor, três pirulitos.
E quem foi que jogou no chão um palito de picolé de groselha?
Reparem mais na foto. Na frente de todos está um casal que sorri feliz. É um casal transparente e dourado. É preciso muito coração pra ver: Milton e Maria.
(Eles criaram a terceira geração Sewaybricker, via rua Joaquim Ortiz de Camargo, em São Miguel Arcanjo).

domingo, 31 de janeiro de 2010

SEMANA DE VELHOS CARNAVAIS. DE 1 A 15 DE FEVEREIRO. ANO 1. NÚMERO 45

Havia, sim, fio dental naqueles tempos. Mas se usava nos dentes. Não na bunda.
Do silicone nem se falava.
Os seios eram deliciosamente naturais e biquinhos sensíveis se arrepiavam quando se tocava neles. Mas, não ficavam à mostra e os namorados só sabiam do arrepio pelos suspiros e ais do não aguento mais.
As pernas das garotas não eram iguais às de Roberto Carlos, do Corinthians, ou do Boi, o grande atacante do glorioso EC São Miguel. Sem músculos, macias, bem torneadas davam vontade de ver o mundo de pernas pro ar.
Se uma daquelas garotas, num impeto amoroso, abraçasse seu namorado, ele não corria o risco de morrer asfixiado pela força dos braços que as mulheres têm hoje.
Eu me lembro do corpo frágil e delicado da Lurdinha Fogaça, a transitar com sua beleza suave pelo salão do Bernardes Jr.
Naqueles tempos, o único pó que se cheirava era o que subia no vai-e-vem de quem pulava. E o fuminho que se acendia quase sempre estava com a data de validade vencida.
Nenhuma moça dançava na boquinha da garrafa e isso dava a certeza absoluta de que não soltavam pum no salão.
Havia brigas, mas homem nenhum puxava o cabelo do outro, nem retocava a maquiagem depois, como acontece hoje em qualquer baile.
Não havia propaganda na TV para se usar camisinha. Naqueles tempos, ninguém esperava o Carnaval para dar ou levar uma pimbada. O Carnaval era apenas uma festa onde ricos e pobres, feios e bonitos, velhos e moços botavam pra quebrar as agruras da vida. E cantavam: Ei, você aí, me dá um dinheiro aí...
E os que não haviam resolvido seus complexos de Édipo, atacavam: Mamãe eu quero, Mamãe eu quero mamar...
Bons tempos em que João Ortiz e sua banda só tocavam marchinhas e sambas, com começo, meio e fim, sem a bagunça generalizada do Rap e outros absurdos musicais.
Hoje, o Carnaval se resume em bundas imensas que a Rede Globo faz questão de sacudir na nossa cara.
Mais triste é que são bundas artificiais, no tamanho e proporção do grande cocô em que transformaram o mundo.
Foliões de velhos carnavais, um conselho: fiquem em casa com seus pedacinhos coloridos de saudade.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

SEMANA DO SORRISO. DE 10 A 17 DE JANEIRO DE 2.010. ANO 1. NÚMERO 44

SORRIA
Um empreguinho
para o Pedro Bial

Tapichi, o mendigo eterno (às vezes, ele aparece), manda lá do alto avisar o apresentador de TV Pedro Bial: existe um servicinho pra ele no sitio da Dona Penha, na estrada para Capão Bonito. É coisa bem mais limpa que o Big Brother. Cuidar do chiqueiro.

***


Adolescente, inseguro, com todos os espelhos a me chamarem de feio, eu carregava meus complexos de inferioridade para São Miguel Arcanjo, nas férias de julho e fim de ano.
Mas, lá encontrava dois sorrisos que me faziam bem e eu aprendia a gostar de mim.
O sorriso do Romeu, irmão do Adib e do Dudu (filhos do "Naile") e o sorriso do Abdalinha, dono do mais gostoso bar da praça, me tornavam importante e bonito e eu sentia que era benvindo, sem precisar olhar no espelho.
Mais velhos que eu (o Abdalinha muito mais), os dois amansavam muitas vezes minha alma com um simples sorriso. Talvez o sorriso que você anda escondendo quando encontra o dentista, o soldado, o delegado, o credor, o devedor, o padeiro, o barbeiro, a cabeleireira, o mecânico, o eletricista, o marceneiro, o mendigo, o varredor de rua, o açougueiro, o velho no banco da praça, a velhinha na escada da igreja ou pendurada na janela, o caipira perdido da roça, o forasteiro de passagem pela cidade.
Aprendi com o Romeu e o Abdalinha que um sorriso pode aliviar o peso de uma alma, de quem dá e de quem recebe.
Sorria para o próximo que passar por você. A cidade de São Miguel Arcanjo vai ficar mais amorosa e simpática. E você mais feliz.


***
Antigamente, para conhecer a zona, os jovens de São Miguel Arcanjo passavam na casa da Carula.
Hoje, eles assistem a Novela das Oito.

***
Quando um homem beija em público a boca de outro homem ou é um santo ou é um louco ou é um sem vergonha.







segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

2.010. O ANO DE TAPICHI. NÚMERO 43



"SENHOR PREFEITO, SENHORES VEREADORES DE SÃO MIGUEL ARCANJO:

Antes que todos os senhores fossem, eu já era.
Eu fui Tapichi.
Durante meio século eu fui o mendigo Tapichi.
É com ch que se escreve , não com x.
Tapichi significa nonato e nonato significa feto encontrado no ventre de uma vaca morta ou de mulher pobre e desconhecida.
Senhor Prefeito, senhores Vereadores: o que eu venho pleitear é uma estátua ou um busto em minha homenagem, em qualquer ponto da cidade de São Miguel Arcanjo.
Entendam, senhores, que não há nenhuma vaidade nesta pretensão, já que em alguns lugares belos e amorosos do mundo cachorro vira monumento para glorificar a humildade.
E é a humildade que eu quero engrandecer, o único gesto humano que pode salvar nossa Terra a partir de 2.010.
Ninguém, em São Miguel Arcanjo, sabe de onde eu vim --- e os que sabiam já se foram.
Eu viu de onde estou agora.
E é daqui, sempre eterno, que eu posso contar um segredo para os senhores.
Vivi anos e anos como mendigo em São Miguel Arcanjo em obediência à vontade de Deus.
A minha missão era serenar o coração das pessoas, com estas tarefas que Deus me passou:

1. Ser o dono generoso de todos os cães vadios e abandonados e dormir com eles nas calçadas.
2. Não ficar pouco tempo nem demorar muito no mesmo lugar.
3. Estender as mãos, todos os dias, com a esperança de alguém a apertar num cumprimento amigo, sem medo.
4. Tomar um banho de chuva com meninos magrinhos de peito nu.
5. Não bajular os ricos e poderosos nem menosprezar os mais pobres e humildes pelo medo de se tornar um deles.
6. Acompanhar sempre as procissões de São Miguel e outros santos, mas nunca carregar o andor para estar entre os eleitos.
7. Jamais deixar defunto pobre passar uma noite num velório sem ninguém.
7. Permitir que uma criança triste pela miséria humana atire com suas últimas forças uma pedra, só para se vingar das injustiças e sorrir um pouco.
8. Não condenar aquele amor que as mulheres vendem em casas e esquinas, mas revelar o outro amor, que não se compra nem se vende, para que suas almas não pesem tanto.
9. Correr com as crianças pobres atrás de varas de rojão e cair com elas a catar sonhos no chão.
10. Comer um pedaço de pão como se fosse a primeira e última vez.
11. Cantar baixinho, uma tarde por ano, para os mortos do cemitério.
12. Cantar alto, uma vez por ano, para os mortos da cidade.
13. Amar a vida como um cego, não pelo que se vê, mas pelo que se sente.
14. Dançar, no largo da matriz, com a música da banda ou com a música dos anjos, que poucos ouvem.
15. Colher uma laranja madura, nascida por si mesma, a esmo, sem dono, e agradecer: Grato, meu Deus.
Senhor Prefeito e Senhores Vereadores:
Foram tantas as tarefas que páro por aqui. Não quero aborrecer ninguém.
Só espero que os senhores entendam, aceitem e aprovem minha petição.
Não falei ainda com Deus, mas acho que ele vai gostar.
Os passarinhos também.
Respeitosamente, Tapichi ( O mendigo eterno)."

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

FAÇA DE CONTA QUE É NATAL. ANO 1. NÚMERO 41

O DESAMOR A SÃO MIGUEL:

SUA HISTÓRIA VIRA PÓ

QUE O VENTO CARREGA


Ailton Sewaybricker, que é uma das estrelas do Cruzeiro do Sul, e Orlando Pinheiro, dois são-miguelenses como eu, vêem nossa casa cair e lamentam muito. Eu, também. Na nossa casa viviam o Luís Valio, o Calixto João, o padre Chico, a Izabel Terra, o Fouad, o Harif.
Nossa casa era cheia de histórias. Nela se falava muito mal do demônio e muito bem de São Miguel Arcanjo. E as crianças se encantavam diante de suas portas ou abaixo de suas janelas.
Em nossa casa nasceu o futuro de uma cidade.
Mas, o futuro, quando é um filho ingrato, mata a própria mãe, que é a história.
Ainda é possível salvar?
Depende do amor filial de quem governa a cidade.
Mas, como eles são políticos, fica um certo medo. É que, infelizmente, quase todos destróem a história, porque a história só carrega heróis. E poucos políticos chegam a tanto.


CASAL DE SÃO MIGUEL

BATE UM RECORDE


Zeco e Lúcia.
Uma bela dupla caipira.
Gente bonita do sítio.
E os dois merecem entrar no Guiness pelo recorde de produtividade: 15 filhos!
Zeco tem pouco mais de 40 anos. Lúcia, um pouco menos.
O casal e os 15 filhos apareceram numa reportagem do Jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba, uma prova de que gente de São Miguel Arcanjo não costuma brincar em serviço, muito menos quando apagam a luz.
E Papai Noel como é que fica numa hora dessas?
Seria bom saber do próprio Papai Noel se ele não precisa de ajuda. E se for preciso alguma coisa, ajudar um pouco não custa nada.
Talvez o Prefeito, talvez o Padre, talvez você e eu possamos homenagear com um pequeno presente essa família de São Miguel Arcanjo que é um exemplo de produtividade e união.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

SEMANA DO PUM. DE 9 A 16 DE DEZEMBRO. ANO 1. NÚMERO 40


O AQUECIMENTO GLOBAL
COMEÇOU EM SÃO MIGUEL ARCANJO COM
O PUM DAS VACAS
Havia uma velha estufa em São Miguel Arcanjo, onde fica hoje o clube Bernardes Júnior. Mas não foi lá que começou o Efeito Estufa.
Joaquim Maestro já dizia, a fumar na janela seu cachimbo da tarde, que o mundo iria acabar com um peido (desculpem essa palavra grosseira, mas se o Presidente fala merda na TV, eu posso falar peido, que é muito mais leve).
Nestor Fogaça concordava com Joaquim Maestro e pensou até, numa das vezes em que foi Prefeito, em proibir peidos em lugares públicos, como o cemitério em dia de grandes enterros, o campo de futebol, a piscina do Abdala Jabur, o Largo da Matriz (e também atrás da Igreja). E seriam severamente penalizados os que liberassem seus gases durante as procissões (Missa, nem pensar).
Mas, não havia amparo legal para Nestor Fogaça e os peidos explícitos (que se ouvem) e os implícitos (silenciosos) continuaram a subir pelos ares, sem que o Vento do Mar os dissipasse.
Mas, o problema maior não era a flatulência de senhores e senhoras respeitáveis ou de gente mal-educada.
O Pum das vacas é que enchia mais o ar de gases.
De Pilar do Sul, já se avistava a nuvem de dióxido de carbono a crescer sobre São Miguel Arcanjo.
Foram convocados os criadores de vacas leiteiras para resolver o problema, que não se resumia só no cheiro, mas também na falta de ar. Compareceram Benedito Terra, Chico Rosa, Tiago França e Anibal Coelho, entre outros.
Todos ouviram a sugestão de Nestor Fogaça para tapar o buraco das vacas dez horas por dia. Apesar de certa estranheza, houve concordância geral, com uma ressalva: o horário do tapa-buraco não poderia ser generalizado, já que havia algumas diferenças.
As vacas de Dito Terra, segundo ele mesmo disse, soltavam Puns das 4 às 7 horas da manhã.
As do Tiago França preferiam a noite.
O Chico Rosa, que também tocava uma padaria no Largo da Matriz, nem sabia em que horário suas vacas ventavam e poluiam o ar.
O Anibal Coelho jurava nunca ter reparado numa coisa dessas, porque há bom tempo andava meio surdo e com sinusite.
Assim, as vacas, em sua santa ignorância, continuaram a peidar livremente e começava em São Miguel Arcanjo o efeito estufa e o aquecimento global, que se espalharam pelo mundo meio século depois.
E o planeta pode acabar assim: Pum!!!